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Carta aberta sobre o programa de distribuição de sementes do estado de Sergipe



É com muita tristeza que os movimentos e organizações sociais que atuam no campo sergipano lançam mais uma carta aberta para denunciar a falta de diálogo com o Governo do Estado e a não execução do Programa de Distribuição de Sementes do Estado de Sergipe.


Entramos o ano de 2021 com um cenário de descontrole da pandemia de coronavirus no Brasil, de desvalorização da moeda, aumento do desemprego, aumento do preço dos insumos agrícolas e dos alimentos e, por consequencia de tudo isso, aumento significativo da insegurança alimentar e da fome.


Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (2013) e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (2017-2018 /2020) do IBGE mostra que, para domicílios sergipanos, a Prevalência de Insegurança Alimentar Leve e Moderada ou Grave ampliou de 32,7%, em 2013, para 48,4%, em 2018, sendo provável o agravamento desta situação nos anos de 2020 e 2021 pelo cenário da Pandemia da COVID-19.


Estes dados não excluem as famílias camponesas que, apesar de estarem no campo, com mais possibilidades de produção de alimentos para consumo, encontram-se em situação econômica difícil devido a diminuição dos espaços de comercialização como as feiras, a não execução de programas institucionais de compras de alimentos da agricultura familiar e as dificuldades de circulação de pessoas para viabilizar a comercialização. Somado a isto a questão de que a agricultura familiar foi uma das únicas categorias que não teve acesso ao Auxílio Emergencial.


Segundo relatório VIGISAN (2021) da Rede de PENSSAN, no Brasil, 65,2% dos agricultores familiares analisados estão em insegurança alimentar (grave, moderara e leve). E que, ainda segundo este relatório, a insegurança alimentar grave no Nordeste está entre os maiores valores do país e acomete 13,8% de domicílios, com números mais alarmantes na Zona Rural e em domicílios chefiados por mulheres; e que em domicílios rurais que tiveram redução nos preços e/ou na produção, a insegurança alimentar grave foi maior.


Em 2021 foram solicitadas, através de ofícios e de reuniões com órgãos de governo, que houvesse uma audiência entre as organizações e movimentos sociais do campo sergipano com o Governador Belivaldo Chagas para tratar do Programa de Distribuição de Sementes e as ações junto a agricultura familiar, assentamentos de reforma agrária, povos e comunidades tradicionais de Sergipe, porém não foram atendidas.


Segundo informações colhidas do site da própria Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (EMDAGRO), o Programa de Sementes do Estado, que já possui mais de 20 anos, beneficiou em 2018 ao menos 25 mil famílias camponesas de baixa renda e 37 mil em 2019, o que proporcionou segurança alimentar na população rural e favoreceu a sustentabilidade de pequenos rebanhos. Nos anos de 2020 e 2021 o programa não foi executado pelo Estado.


No Diagnóstico do Programa de Sementes do Estado de Sergipe, realizado no final de 2019 e início de 2020 pela SEAGRI, EMDAGRO e movimentos sociais, foram dialogadas com 82 comunidades, em 20 municípios. Os dados obtidos mostram que 60% dos beneficiários que receberam sementes plantaram pequenas áreas, de até 3 tarefas. O que indica a vinculação da política pública com a pequena agricultura, com o real atendimento de quem necessita. E que 80% dos beneficiários da distribuição de sementes utiliza a produção para consumo próprio, seja para alimentação humana e/ou para alimentação de seu rebanho animal;


A distribuição de sementes possibilita que, através do trabalho familar no campo, os agricultores e agricultoras possam ter produção para alimentar a família e seus animais. Com tudo isso, nos perguntamos: como pode não haver a execução deste programa, justamente num cenário de pandemia, aumento do empobrecimento rural, aumento da insegurança alimentar e aumento do preço dos insumos agrícolas?


Vale ressaltar que temos no artigo 4º da Lei Estadual nº 8.167/16 que institui o conceito de sementes crioulas e o incentivo à conservação da Agrobiodiversidade no Estado de Sergipe, o reconhecimento de que “as atividades de conservação e utilização sustentável da Agrobiodiversidade no Estado de Sergipe são consideradas de interesse social e essenciais para as estratégias de desenvolvimento rural sustentável, de promoção da segurança alimentar e nutricional e de sustentabilidade ambiental”; e no Decreto nº 40.051/18 (que regulamenta a Lei Estadual nº 7.270/11 e institui a Política Estadual de Agroecologia e de Produção Orgânica, o Plano Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PLAEAPO – e cria a Comissão Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – CEAPO) em seu art. 21 que “o governo do Estado deve incentivar a comercialização e circulação de sementes crioulas, conhecidas em Sergipe por Sementes da Liberdade, favorecendo a aquisição de variedades conservadas por agricultores do estado”


Com tudo isto, denunciamos o fato à sociedade sergipana e solicitamos ao Governador Belivaldo Chagas:


1) Que execute o Programa de Distribuição de Sementes do Estado de Sergipe ainda em 2021 com as sementes que forem possíveis ser distribuídas neste ano, respeitando o calendário agrícola do estado;


2 ) Que institua um Fórum para dialogar com as entidades representativas da agricultura familiar camponesa sergipana sobre o Programa, visando melhor adequá-lo à demanda das famílias agricultoras sergipanas, assim como para a elaboração de um plano de trabalho do Estado para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa em Sergipe.


Assinam esta carta:


Articulação de Movimentos Sociais do Campo Sergipano

Rede Sergipana de Agroecologia – RESEA

Via Campesina Sergipe

Articulação do Semiárido de Sergipe – ASA

Articulação Popular São Francisco Vivo

Movimento Camponês Popular – MCP

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST

Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

Movimento de Mulheres Camponesas – MMC

Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos – CONAQ

Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste – MMTR

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Sergipe – FETASE

Pastoral da Juventude Rural – PJR

Aldeia Indígena Xocó

Cáritas Regional NE 3

Cáritas Diocesana de Propriá

Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional de Sergipe – OSANES

Sociedade de Apoio Sócio Ambientalista e Cultural – SASAC

Centro Dom José Brandão de Castro - CDJBC

Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos – MOTU/MTD