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Semente crioula gera comida de verdade: experiĂȘncias de beneficiamento do milho livre de transgĂȘnico

  • Oct 4, 2021
  • 6 min read


JĂĄ com saudades Ă© que lembramos que nesse ano o SĂŁo JoĂŁo teve milho livre de transgĂȘnicos direto da agricultura familiar. SĂŁo diversos produtos derivados da conservação local das variedades crioulas. Vamos falar aqui de trĂȘs casos, todos no SemiĂĄrido: a cooperativa CopirecĂȘ, na Bahia; o Movimento CamponĂȘs Popular, em Sergipe, e a parceria entre o Polo da Borborema e a AS-PTA, na ParaĂ­ba.

Essas organizaçÔes vĂȘm oferecendo uma diversidade de produtos derivados do milho que cada vez mais representa um alĂ­vio para quem chega ao mercado e sĂł encontra embalagens rotuladas com o T dos transgĂȘnicos. Dentre os produtos, temos o flocĂŁo de milho para cuscuz, creme de milho, xerĂ©m, munguzĂĄ, fubĂĄ, canjiquinha, mingau de milho verde e o mingau de multicereais.

Por trĂĄs de cada um desses produtos existe uma longa caminhada de luta. Zene Vieira, agrĂŽnoma responsĂĄvel tĂ©cnica da CopirecĂȘ e mestranda em Produção Vegetal no SemiĂĄrido pelo Instituto Federal Baiano, em Guanambi, conta que, no inĂ­cio, as sementes dos cooperados estavam contaminadas por transgĂȘnicos e que isso dificultava a comercialização. “Foi aĂ­ que percebemos a necessidade de descartar essas sementes e adquirir outras certificadas nĂŁo transgĂȘnicas para repassar para os agricultores”, explica. A Cooperativa comprou sementes de agricultores que tinham suas variedades “limpas” e, alĂ©m disso, estabeleceu parceria com a Embrapa para aquisição de variedades melhoradas nĂŁo transgĂȘnicas.

Para garantir que nem o milho colhido, nem as sementes estejam contaminados, os testes para detecção de transgĂȘnicos sĂŁo feitos em trĂȘs momentos diferentes. “Fazemos o primeiro ainda em campo com o milho na espiga, depois no recebimento pela Cooperativa e, por Ășltimo, jĂĄ dentro do armazĂ©m, em lotes maiores, de 300 ou 500 sacos”, explica Zene. O teste de fita que detecta a presença de proteĂ­na transgĂȘnica Ă© usado nas duas primeiras etapas e o PCR, que faz anĂĄlise molecular, Ă© feito por Ășltimo”.

A CopirecĂȘ organizou tambĂ©m um banco de sementes, a partir do qual tem resgatado variedades consideradas perdidas na regiĂŁo. O banco empresta aos cooperados no sistema de um pra dois. Ou seja, quem pega um saco de sementes para plantio devolve dois apĂłs a colheita de forma que haja sempre sementes disponĂ­veis para todos.

Phillipe Caetano, do Movimento CamponĂȘs Popular, o MCP, conta que essa produção sempre existiu entre os agricultores, porque o milho Ă© base de muitos produtos na nossa alimentação e Ă© largamente empregado tambĂ©m na alimentação animal. Alguns agricultores jĂĄ utilizavam as sementes crioulas em suas produçÔes e outros passaram a produzir a partir do incentivo do Movimento. “A gente tenta fazer com que a semente chegue nas mĂŁos dos agricultores, e começamos esse trabalho de destinar a produção do milho tanto para o beneficiamento como para a comercialização da semente”, explica Phillipe, que integra o GT Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia.

As polĂ­ticas pĂșblicas tĂȘm desempenhado papel importante na distribuição das sementes. Algumas prefeituras adquirem sementes produzidas pelos agricultores e as distribuem para o cultivo por outras famĂ­lias. Muitas vezes, o incentivo para os agricultores se dĂĄ a partir desse processo. AlĂ©m disso, o MCP compra a produção por um preço 30% superior ao do mercado como forma de estimular as famĂ­lias a continuarem produzindo e multiplicando as variedades crioulas.

No caso da ParaĂ­ba, o trabalho construĂ­do em parceria com a ASA ParaĂ­ba, conta hoje com um Banco MĂŁe de Sementes, cuja estrutura Ă© composta por uma unidade de beneficiamento de milho e uma cozinha escola. “A unidade de beneficiamento jĂĄ estĂĄ a pleno vapor”, comemora Emanoel Dias, assessor tĂ©cnico da AS-PTA e integrante da Rede Sementes da ASA ParaĂ­ba. Segundo Emanoel, uma das preocupaçÔes atuais Ă© que os derivados do milho, como o flocĂŁo, o xerĂ©m e o mungunzĂĄ, tenham preços acessĂ­veis ao povo. Para tanto, a cooperativa EcoBorborema estĂĄ fazendo levantamentos comparativos sobre custos de produção e preços praticados nos mercados da regiĂŁo.

As conclusĂ”es iniciais sĂŁo animadoras e mostram que a unidade de beneficiamento do Banco MĂŁe Ă© autofinanciĂĄvel e economicamente viĂĄvel. “Essa conquista Ă© resultado de um longo trabalho e nossa intenção nĂŁo Ă© entrar no mercado para concorrer com as empresas de alimentos, mas para valorizar as experiĂȘncias dos agricultores”, destaca Emanoel. Outro desafio atual Ă© aumentar o volume de milho a ser processado, jĂĄ que a regiĂŁo passa por anos seguidos de seca. Para tanto, AS-PTA e Polo da Borborema estĂŁo buscando parcerias com a Articulação do SemiĂĄrido Brasileiro (ASA), a ComissĂŁo Pastoral da Terra (CPT) e outras organizaçÔes para que utilizem a unidade do Banco MĂŁe para o beneficiamento da produção de suas regiĂ”es.

Em paralelo, o beneficiamento da produção e a chegada dos produtos livres de transgĂȘnicos aos mercados e feiras locais tĂȘm sido um fator de estĂ­mulo ao grupo de guardiĂ”es e guardiĂŁs das sementes no territĂłrio da Borborema, que jĂĄ planeja aumentar a escala de suas produçÔes de milho. A proposta Ă© acrescentar um prĂȘmio de atĂ© 30% ao valor de compra do produto livre de transgĂȘnicos. Os testes para detecção de transgĂȘnicos sĂŁo feitos anualmente e os Ășltimos resultados tĂȘm indicado a redução da contaminação.

Em Sergipe, a maior parte do cuscuz agroecolĂłgico Ă© comercializada diretamente ao consumidor ou por meio de intermediĂĄrios, lojas de produtos naturais e mercearias. Durante a pandemia a demanda pelo produto aumentou, tanto por parte do poder pĂșblico, como de organizaçÔes parceiras do movimento agroecolĂłgico. O MCP conseguiu incluir o cuscuz nas cestas bĂĄsicas do Programa Estadual de Aquisição de Alimentos (PAA) e realizou vendas de sementes para a ASA e para o Centro SabiĂĄ, de Pernambuco. A CopierecĂȘ passou a atender mercados nas regiĂ”es sul e sudeste do paĂ­s e tambĂ©m a partir do estabelecimento de parceria com o governo do estado da Bahia, no quadro do Projeto Bahia Produtiva. A ampliação desses mercados teve tambĂ©m rebatimentos positivos, no aumento do volume da produção do milho pelas famĂ­lias.

As experiĂȘncias de processamento e comercialização tĂȘm contribuĂ­do para a conservação das variedades crioulas. Como toda a produção Ă© submetida ao teste de transgenia, as organizaçÔes conseguem prevenir que sementes contaminadas sejam plantadas. Mas esse controle, por si sĂł, nĂŁo elimina os impactos dos transgĂȘnicos sobre as variedades crioulas. No caso da ParaĂ­ba, as famĂ­lias agricultoras fazem parte de uma rede de bancos de sementes comunitĂĄrios, o que permite localizar e repor um lote de uma dada variedade contaminada. AlĂ©m disso, o Banco MĂŁe guarda estoques de segurança de algumas variedades. A CopirecĂȘ tambĂ©m organiza seu banco de sementes e recorreu, alĂ©m disso, a variedades produzidas pela Embrapa. O MCP tem buscado diversificar as variedades usadas pelos agricultores para compensar perdas que ocorreram pela contaminação. Para tanto, incentivam que um nĂșmero crescente de agricultores assuma a multiplicação das variedades locais. “Se tem uma variedade crioula que sĂł Ă© produzida por 1 ou 2 agricultores, estamos tentando ampliar isso para 4 ou 6 para que a gente possa de fato ampliar a quantidade de variedades nĂŁo contaminadas”, explica Phillipe.

AlĂ©m do banco de sementes, a CopirecĂȘ incentiva a produção pelas famĂ­lias por meio da instalação de kits de irrigação, o apoio com equipamentos para preparo do solo, sacaria adequada, transporte e o fomento financeiro. “Conquistamos a certificação para processamento do milho orgĂąnico, que Ă© uma certificação participativa atravĂ©s da Rede Povos da Mata. E, recentemente, recebemos inspeção do Instituto BiodinĂąmico (IBD) no intuito de conquistar mais um selo, o GMO Free [livre de transgĂȘnicos]. Todas essas inspeçÔes atestaram os mĂ©todos e procedimentos que adotamos para manter a integridade dos nossos produtos e mostrar que os agricultores familiares e as pequenas cooperativas tambĂ©m podem e devem ter produtos de qualidade”, destaca Zene.

“O flocĂŁo nas feiras Ă© uma oportunidade de conversar com a sociedade, de falar sobre o trabalho da Agroecologia, da importĂąncia desse movimento e para reafirmar que com o trabalho com sementes, que sempre foi o nosso forte, a formação das famĂ­lias e o resgate da diversidade, agora estamos vendo que as sementes tĂȘm possibilitado gerar renda e segurança alimentar para os agricultores e agricultoras que produzem e para aqueles consumidores que vĂŁo Ă  feira”, avalia Emanoel, da AS-PTA.

Phillipe, do MCP, reforça tambĂ©m o ponto de vista de que a colocação desses produtos no mercado abre novos horizontes de diĂĄlogo com a sociedade: “Isso acontece a partir da prĂłpria visibilização do que Ă© possĂ­vel, mostrando que o campesinato tem essa capacidade de se organizar, de produzir e de colocar o alimento de qualidade na mesa das pessoas.”


 
 
 
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